terça-feira, 6 de maio de 2008

Memorial do Grande Terremoto Hanshin-Awaji em Kobe












Alguém se lembra do terrível terremoto que teve no Japão na cidade de Kobe, no dia 17 de janeiro de 1995?
Eu me lembro muito bem, pois uma amiga de família estava no país na época, e pela televisão parecia que não existia mais Japão.
Meu amigo e professor aqui da faculdade conta que a família dele é daquela região, mas ele morava muito longe de lá na época. Nesta manhã ele estava dormindo e sentiu um pequeno tremor. Pensou que era um pequeno abalo sem importância. Ligou a tv e todos os canais mostravam a mesma coisa: alguma coisa aconteceu em Kobe. Só que ninguém sabia o quê, pois a cidade ficou totalmente sem energia, sem telefone, nada que a ligasse ao resto do mundo. Ele tentava ligar para a família e nada além de silêncio era escutado.
O primeiro abalo ocorreu um pouco antes do amanhecer, e teve magnitude 7.3, durando 10 segundos, mas devastando a cidade. Mais de 6400 pessoas morreram e muitos outros ficaram desabrigados.
Muitas casas foram destruídas, e houveram muitas explosões causadas pelo vazamento de gás.
Todo o sistema ferroviário foi destruído, assim como pontes e estradas foram bloqueadas.
Não houve alerta, os especialistas não previram a catástrofe.
Não havia comida e água suficiente para os desabrigados, mas o que mais os afetava era a parte psicológica. O povo japonês presa demais a privacidade, e eles a perderam de um momento para o outro. Abrigos foram improvisados e todos ficavam juntos.
Pessoas de todos os lugares do mundo se apresentaram como voluntários e diversos países ajudaram com alimentos e roupas (lembrando que era inverno).
Kobe foi nossa próxima parada depois de Kyoto.
Ela é enorme, com quase um milhão e meio de habitantes, e não se vê o menor vestígio do terremoto. Muito moderna, com enormes edifícios e um porto muito movimentado. A vida noturna é muito ativa. Como disse a garota croata da excursão, é o Japão futurístico que vemos na televisão. Mas a cidade não esqueceu e criou um museu chamado “O Memorial do Grande Terremoto Hanshin-Awaji – Redução de Desastres e Instituição de Renovação Humana” e foi lá que fomos visitar.
A visita começa no 4º andar, onde uma tela 180º mostra um filme que simula o terremoto no dia, com prédios sendo destruídos, pontes desmoronando, explosões.
Depois que o filme acaba, os visitantes para chegar ao segundo andar passam por corredores que reconstroem as ruas depois do abalo e chegam uma outra sala de cinema, onde um documentário é narrado por uma das sobreviventes. O filme é super triste, pois a garota vai contando tudo, como a irmãzinha morreu, como sua casa foi destruída, como o cachorro parece ter previsto o terremoto (ele sempre dormia no mesmo lugar, mas naquele dia não, e sobre sua caminha caiu o piano que ficava no segundo andar). Depois como foi ocorrendo a reconstrução da cidade e como tudo isso a fez escolher a carreira de enfermagem. Muito olhos saem inchados depois da apresentação, e muitos narizes fungando são escutados. É muito triste mesmo. Os irlandeses levam a fama de serem melodramáticos, mas os japoneses os superam, com certeza. O museu é feito para chocar, e consegue. Eu sai me debulhando em lágrimas.
Quando você acha que nada pode ser mais triste, é conduzido a uma sala enorme, com centenas, talvez milhares de objetos doados pelos cidadãos da cidade. Cada um deles é numerado, e você pode escutar a história de cada objeto. Geralmente ele pertenceu a algum parente morto, como a história de uma flauta tranversal entortada que resolvi ouvir e a doadora narrava que esta tinha pertencido a irmazinha morta da doadora. Não escutei muitas histórias, pois achei que ia acabar dando bafão. Eu choro em propaganda de margarina, sabe... Entretanto, ouvi algumas histórias que contavam sobre os cachorros e todas diziam a mesma coisa: os bichos previram o que ia acontecer. Por que será que não fazem estudos mais sérios sobre essa capacidade dos animais. No tissunami da Tailândia foi a mesma coisa.
Bom, depois descemos ao segundo andar, onde recebemos algumas instruções de como sobreviver a grandes catástrofes.
Como eu fui lá bem na semana que teve o terremoto em São Paulo, com magnitude 5.2º e que durou 7 segundos, estava me sentindo um pouco incomodada. Uma semana a menos e estaria olhando aquela parte só com curiosidade, sem nenhum interesse pessoal, achando que aquilo só acontecia na terra dos outros.
Recebemos um folheto com uma check list com ítens básicos que uma família precisa ter para sobreviver em caso de desastres.
Também há contadores de história disponíveis o tempo todo para narrar suas experiências de janeiro de 1995.
Há maquetes de como os prédios podem ser construídos para que suportem tremores, e quando você vê aquilo, sabe que são projetos impossíveis de serem feitos em larga escala, pois a quantidade de dinheiro necessária é astronômica, mesmo para o Japão, que possui poucos prédios assim.
Peguei três fotos feitas na cidade de Kobe depois do terremoto.
O prédio azul é o museu, todo recoberto por vidro, mostrando por transparência como deveriam ser as estruturas resistêntes a terremotos, e a segunda foto é a cidade hoje, linda, forte, totalmente restaurada, mas que guarda no coração cicatrizes difíceis de sumirem.
Depois desta tristeza toda, o organizador da excursão nos levou para Hiroshima, no Parque da Paz. Enfim, foi um dia bem traumático.
Só para constar, a família de meu professor saiu incólume do desastre, assim como nossa amiga que estava muito distânte do local.

3 comentários:

Edhelcalen disse...

Puta que pariu!
O que foi isso? Uma excursão ao vale de lágrimas?

Nossa! Eu teria ido parar na UTI de tanto chorar.
Que triste.

Mas veja só a rapidez (foi em 95) com que recuperaram tudo!
New Orleans continua um caos. E se fosse na américa do sul... só daqui a 100 anos para ter algo recuperado 90%.

Parabéns ao povo japonês, se quer saber.

Alessandra disse...

Nossa, impressionante mesmo esse memorial, eu morei lá uns 2 anos e não tive a oportunidade de entrar, nem ao menos sabia o que era. É muito interessante ouvir e ver a história, como se passou mesmo.
o povo japonês é realmente um povo com muita força para reerguer-se.
Parabéns à nós!

chanderkobe disse...

Parabens pela materia muito bem informada.